Maternidade e Carreira

Esse tema continua sendo fonte de expectativas, angústias e reflexões profundas. Por mais que tenhamos evoluído em compartilhar as atividades domésticas e da maternidade com os parceiros ou parceiras, o tema ainda solicita muitas adequações na vida de uma mulher que exerce seu papel profissional, afinal o papel de mãe tem compromissos e responsabilidades que são exclusivas, começando pelo desenvolvimento da vida que acontece desde o ventre materno até a amamentação.

Talvez pela nossa mentalidade altamente maternalista, onde o Ethos conectado a figura materna é repleto de fantasias e expectativas que beiram a busca infantilizada da perfeição, afinal essa busca sempre tem um tom infantil.Quando estamos desenvolvendo um papel com o desejo de perfeição e por aceitação, essa meta é um grande planejamento para frustração, além de fragilizar todo e qualquer ser humano!

Muitas profissionais perseguem essa figura idealizada de mãe, que nutre, supri, antecipa, controla e resolve, e esses atributos acabam sendo estigmas que as mulheres levam para seus papéis femininos fora do ambiente corporativo, considerando também que muitas criam essa mesma fantasia para vida corporativa, complicando um pouco mais seus papéis e o desenvolvimento dos mesmos.

Na condição feminina temos um compromisso com a maternidade singular, considerando as mudanças em nosso corpo, que é um processo de sabedoria da natureza que nos prepara fisicamente e emocionalmente para sentir, perceber a beleza da vida que se faz em nosso próprio corpo, mostrando os ciclos e a importância de ter paciência e sabedoria para aguardar o tempo certo, para receber e acolher um novo Ser ao mundo, e assim vê-lo se desenvolver e se desprender para que ele seja autônomo pela própria vida e condição!

Esse processo também pode nos preparar para compreendermos que “dar a luz”, como os antigos diziam, é um ato de desprendimento que estamos sendo um canal para que um ser de luz venha ao mundo, o que é diferente de acreditar que esse Ser nos pertence. Relembrando, os filhos literalmente pertencem a própria experiência de vida que desejam experienciar.

Acredito que as mulheres seriam mais leves no compromisso com a maternidade e composição com os vários papéis, se compreendessem que a maternidade tem ciclos e é uma experiência diferente de uma mudança de identidade.
Quando a maternidade ultrapassa o sentido da vida de uma mulher, como se fosse o único sentido, podemos ter uma disfunção em seu equilíbrio e papéis.

Ouço de muitas profissionais a frase de que seus parceiros deveriam compreender sua ausência de paciência, amorosidade e interesse, pois elas estão envoltas na maternidade com certa indignação pela falta de sensibilidade da outra parte.
Porém, essa é uma distorção de um papel e muitas vezes uma desculpa que esconde outras mazelas da relação, que nada tem haver com a maternidade.

Acredito que se o papel e as expectativas ligados à figura materna fossem menos idealizada e mais real, sem visões distorcidas como, o filho sendo a extensão ou uma “obra” para atender os anseios dos seus pais e às vezes da sociedade, teríamos mulheres olhando a maternidade como um papel importante que pode ser despido de tanto pesar e trazer a realidade é liberdade para exercê-lo em composição com os demais papéis! Assim como o seu papel profissional, escolher viver a maternidade, afinal essa é uma escolha que toda mulher pode ter, pode ser integrado à vida profissional.

Para tal feito, há de se buscar um equilíbrio que traga espaço para conduzir à carreira e desfrutar de todos os demais papéis. Esse equilíbrio está no mindset de cada mulher, mudando muitas crenças que a limitam de ser uma profissional que se desenvolve e que ao mesmo tempo pode ser mãe. Claro, sem tornar essa experiência um impeditivo para investir em seu legado profissional, mas fortalecendo a importância de ser realizada e feliz em vários setores ao mesmo tempo.

Que nesse dia seja possível refletir que ser mulher realizada e feliz em sua carreira e na sua experiência de maternidade é possível!

 

Márcia Dolores Resende.